Nas atividades de criação de animais o bem-estar está relacionado à melhor qualidade dos produtos agrícolas. Há referências na literatura científica relacionando o aumento do tempo de prateleira de carne de peixe com o método de abate praticado. Quanto menos o animal sofreu, melhor a qualidade do produto.

O MAPA - Minitério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento é o órgão federal responsável pela fiscalização da atividade agropecuária da produção ao consumidor final, e no Brasil é quem define as boas práticas do que se considera "bem-estar animal".

A Fiscal Federal Agropecuária Lizie Buss, do MAPA, aponta os critérios adotados atualmente pelo Ministério da Agricultura para medir o grau de bem-estar dos animais. Para ter um alto grau de bem-estar, o animal precisa estar: sadio, seguro, saudável, confortável, livre para expressar comportamentos naturais e livre de sentimentos negativos.

Os sentimentos negativos referem-se a medo, frustração, raiva, insegurança e outros. Animais domésticos como gado, cavalos e porcos oferecem certa facilidade em se observar seu comportamento e perceber sentimentos negativos.

Já com peixes, a história é diferente - por estarem necessariamente debaixo d`água e por não serem capazes de vocalizar, fica mais difícil avaliar o seu bem-estar. Porém, com o avanço da piscicultura intensiva como atividade comercial, as pesquisas na área do bem-estar de peixes também se intensificaram.

Essas novidades foram abordadas em uma série de palestras das professoras Carla Molento (UFPR), Elisabete Viegas (USP/Pirassununga) e Giuliana Parisi (Universidade de Florença), no evento "Bem-estar e Abate Humanitário de Peixes", que aconteceu em setembro de 2017 em Curitiba (PR).

Principais causadores de sofrimento em peixes de cativeiro

Segundo a Prof Carla Molento, podemos analisar a questão do bem-estar de peixes em dois momentos: a criação e o abate.

Na etapa da criação, os principais fatores de bem-estar de peixes são a densidade populacional, a qualidade da água, a esterilidade etológica do ambiente, a incidência de doenças, a manipulação e procedimentos invasivos.

Morte por asfixia ainda é o método mais utilizado, e causa grande sofrimento aos animais.

Na etapa de abate, devemos seguir a orientação da Lei de Crimes Ambientais, evitando maus tratos. Isso significa reduzir o tempo e as etapas do abate, reduzir a exposição dos peixes ao ar e assegurar a dessensibilização dos animais. A dessensibilização é um procedimento já praticado no abate de bovinos, suínos e aves, e consiste em processos que deixam o animal inconsciente antes de ser abatido, com o objetivo de evitar a dor e o sofrimento na hora da morte.

A Professora Elizabete Viegas, da USP, falou das últimas pesquisas sobre o bem-estar de peixes e trouxe uma informação que está dificultando a definição de padrões: as técnicas de dessensibilização são específicas para cada espécie de peixes. Imagine a quantidade de espécies de peixes que temos no Brasil, precisamos de um protocolo de abate específico para cada uma delas.

O evento “Bem-estar e Abate Humanitário de Peixes”, foi organizado pelo LABEA (Laboratório de Bem-estar Animal)/UFPR e contou com o apoio do MAPA, CNPq e CAPES. Foto: Cleber Alexandre

Elizabete também trouxe o conceito para um abate ideal, situação em que o peixe tem uma perda instantânea da consciência, ou pelo menos não tem sofrimento ou estresse evitável.

Indicativos de estresse no caso de peixes são aquelas tentativas de fuga na hora do abate (medo), ou quando vão à superfície na tentativa de encontrar água com mais oxigênio. Qualquer situação pré-abate que envolva a redução do volume de água ou deixe os peixes em uma taxa de estocagem maior e sujeitos a danos às escamas, é considerada redutora de bem-estar animal.

O jejum é uma prática comum para o transporte de peixes vivos para os frigoríficos. A partir de 2 dias sem alimento, os peixes já começam a sofrer, o que pode comprometer a qualidade da carne.

Quem conhece como a piscicultura extensiva é feita, sabe bem das práticas do manejo, altamente invasivas, e o processo da despesca em que se utilizam redes que raspam as escamas dos peixes, com o esmagamento dos animais e a morte por asfixia na maioria dos casos!

Como melhorar o grau de bem-estar dos peixes na aquaponia

A aquaponia enquadra-se como uma atividade de piscicultura intensiva, pois mantém peixes em cativeiro em um sistema "fechado". Para cuidar dos nossos peixes da maneira certa e assegurar seu bem-estar durante a criação, devemos:

Cuidar da qualidade da água, garantindo que o sistema esteja equilibrado e ciclando as substâncias tóxicas suficientemente.

Cuidar da oxigenação da água, com a utilização de aeradores ou planejando no encanamento formas de oxigenação (como o sistema Venture).

Cuidar da naturalidade do ambiente, ou seja, o quanto que o ambiente se assemelha ao habitat natural. Nessa parte entram medidas sobre luz e sombra, cores do tanque, movimentação e parâmetros da água.

Disponibilidade de alimento. Evitar jejum dos peixes de mais de 2 dias, garantindo a abundância dos alimentos sem comprometer a qualidade da água.

Cuidar da saúde dos peixes, evitando a proliferação de doenças. Quando perceber um peixe doente, leve-o a uma estrutura de quarentena, para evitar que a doença se espalhe na sua criação. No caso de cultivos comerciais, ter um veterinário por perto é essencial.

E o abate? O método de dessensibilização mais promissor no caso de peixes é o choque elétrico (stunning), realizado com equipamentos especiais. A regulagem desses aparelhos deve respeitar os estudos científicos realizados para cada espécie de peixes, portanto devemos aguardar mais alguns anos para termos protocolos padronizados. Existem empresas brasileiras realizando parcerias com centros de pesquisa para desenvolver novos equipamentos aos piscicultores.

Como ainda não há protocolos padronizados, se você estiver buscando formas de abater seus peixes sem sofrimento, procure se informar junto ao MAPA sobre as boas práticas mais recentes. Enquanto isso, aguardamos os resultados das pesquisas!

Para se aprofundar no tema, assista à palestra da Professora Carla Molento:

O evento "Bem-estar e Abate Humanitário de Peixes", foi organizado pelo LABEA (Laboratório de Bem-estar Animal)/UFPR e contou com o apoio do MAPA, CNPq e CAPES.

Acompanhe as novidades do LABEA/UFPR em http://www.labea.ufpr.br/portal/.

Presto meus agradecimentos aos organizadores do evento por disponibilizarem este conteúdo de forma gratuita à comunidade!

Agradeço também às pesquisadoras palestrantes, por divulgarem seus conhecimentos.